Arquidiocese de Maceió | Igreja Missionária e Samaritana

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Notícias / Entrevistas

09/10/2013 13h04

Frei Carlos Mesters fala sobre a a realidade do acesso às Sagradas Escrituras, círculos bíblicos e leitura popular

O frade carmelita é Doutor em Teologia Bíblica e esteve em Maceió ministrando um curso de formação

Pe. Rodrigo Rios
Frei Carlos Mesters é holandês e veio como missionário ao nosso país em 1949, morando atualmente em Unaí (MG)

Anualmente, a Igreja no Brasil comemora setembro como o mês da Bíblia, animando assim diversas experiências de contato e estudos com as Sagradas Escrituras. Por conta disso, a Arquidiocese de Maceió promoveu uma semana de estudos bíblicos trazendo Frei Carlos Mesters, conhecido por todo o país por conta dos seus livros publicados e cursos ministrados. O frade carmelita é holandês, e veio como missionário ao nosso país em 1949, morando atualmente em Unaí, no estado de Minas Gerais. Doutor em Teologia Bíblica, é membro fundador do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), que tem como objetivo difundir a leitura da Bíblia nos meios populares. Frei Mesters concedeu ao Portal esta entrevista, onde fala sobre a realidade do acesso às Sagradas Escrituras, círculos bíblicos e leitura popular.

Como o senhor vê a realidade hodierna em relação aos católicos e a leitura das Sagradas Escrituras?
Quando eu pergunto, por exemplo, em um curso sobre bíblia, se há 50 anos, os participantes possuíam as Sagradas Escrituras, poucos responderiam que sim. Contudo, se falo no tempo de agora, todos levantariam as mãos dizendo que sim. É uma nova fase! Muita gente lê a Bíblia diariamente, e quando faz isso, sobretudo nas comunidades de base, não é sobretudo para colocar doutrinas na cabeça, mas para conversar com Deus. É como alguém que todos os dias pega o telefone e conversa com um amigo; muitas pessoas conversam então com Deus diariamente e sentem Deus falar com elas. Esta maneira de ler a Bíblia, acredito eu, que vem como fruto do próprio fato do Concílio Vaticano II. Ali, foi dito de início: “Deus se revela a si mesmo, ele se comunica com a gente”. É isto que o povo sente. Fazem um ato de fé, dizendo que Deus está com ele e ele está com Deus. Isto é um pouco do que Jesus fez quando se encontrou com a samaritana. Jesus podia ter dito ali no poço: “Eu sou o Messias e vim para ensinar você”. Mas, não. Jesus disse: “Dá-me um pouco de água, pois estou com sede!” Olha, que bonito! É outra forma de comunicação que faz a pessoa se sentir importante porque precisa dela, e aí criam-se condições de um diálogo. É isso que está acontecendo na leitura da Bíblia hoje. Pouco a pouco, ela deixa de ser simplesmente um livro só de doutrina, para ser, em primeiro lugar, um livro de conversa com Deus.

Esta mudança de situação, em sua análise, se deve exclusivamente ao Concílio Vaticano II?
Em parte sim, mas também por conta do encontro dos bispos em Medellín e todo o movimento que vinha antes do Concílio. A Bíblia começou a ser traduzida aqui, depois do Concílio, com uma divulgação rápida. Por exemplo, a bíblia da editora Ave-Maria, já teve mais de duzentas edições. São muitas! Talvez não seja a melhor tradução, mas foi a Bíblia que melhor ajudou a divulgar a Palavra de Deus no meio do povo.

O senhor foi um promotor da leitura popular das Sagradas Escrituras. Atualmente, quais as suas impressões sobre isso?
Quando se diz leitura popular, significa que o povo está lendo a Bíblia. O povo tem seu jeito de conversar, como também tem seu jeito de ler as Sagradas Escrituras. Leva consigo suas perguntas, suas alegrias, suas tristezas. Se uma senhora tem uma criança doente em casa e conversa com outra, caso esta fale que tem um menino bom em sua casa, consequentemente a primeira se lembrará do seu filho que está doente, não é verdade? Então, quando o povo lê a Bíblia e escuta a seguinte frase: “Eu escutei o clamor do meu povo”. Imagine! Hoje se tem muito clamor, não é? O povo então percebe que inclusive hoje Deus escuta o seu clamor. É este o sentido: uma ligação entre Bíblia e vida, entre vida e Bíblia. Antigamente, isso se chamava de leitura simbólica. Quando se diz desta forma, se pensa em símbolo. Mas, não é não. O oposto de simbólico é diabólico, ou seja, separa Bíblia e vida. Eu acho que é isto que o povo faz hoje, liga a Bíblia com a vida e assim a vida ajuda a entender a Bíblia e vice-versa. Por detrás está a certeza que a Bíblia é a Palavra de Deus.

E sobre os Círculos Bíblicos? Foi o grande instrumento para a difusão da leitura popular da Bíblia?
Eu acredito que os Círculos Bíblicos são a melhor coisa que o Brasil tem. O povo se reúne em torno da Palavra de Deus e partilha a fé que possui. Quando você se reúne nestes círculos bíblicos, não é para brigar, para discutir quem sabe mais, mas para que cada um possa dizer o que encontra na Bíblia, como vive sua fé. Você sabe o que é conversa grande? É conversão! Em português dá certo. Na medida em que você conversa, você vai se convertendo. Só Deus é quem sabe no Brasil quantos círculos bíblicos nós temos! Em todo canto tem! Em grupo, a dois, em família, em comunidade... Sabe quanto anos tem o círculo bíblico? Desde o tempo de Jesus. O que é um círculo bíblico? É povo reunido em torno da Palavra de Deus para ler, rezar e discutir juntos, vendo onde pode se ajudar mutuamente. Isso Jesus fez em Nazaré toda semana no sábado, na sinagoga.

O senhor é considerado iniciador de um método conhecido como triângulo hermenêutico. Poderia nos falar mais sobre o mesmo?
Eu não inventei nada. O povo simplesmente lê, reza e vê como pode traduzir isso na vida. Se você chama isso de triângulo hermenêutico, é uma palavra difícil... Pode ser! No fundo é apenas fazer o que se fazia no tempo de Jesus. Um rabino, pouco tempo depois de Jesus afirmou que o mundo repousa sobre três fundamentos: a lei, o culto e o amor. A lei é a Bíblia, o culto é a reza, o amor é a ajuda mútua. É como café, leite e açúcar, misturou, não se separa mais! Na leitura bíblica têm essas três coisas: a leitura, reza e ajuda mútua. É o que Jesus fez no caminho de Emáus.

Em sua visão, quais as maiores problemáticas em torno das Sagradas Escrituras por parte dos católicos, em termos, por exemplo, de estudos ou acesso?
A primeira dificuldade é o preço. A bíblia não é barata. Vejo pessoas que compram a prestações. Outra questão é a tradução. Há varias! Mais de dez traduções em português. Há algumas que são um pouco mais difíceis, feitas mais para o estudo, outras para ajudar o povo a entender, como uma na Linguagem de hoje. Tem a Pastoral, a CNBB, a de Jerusalem, a de Aparecida... isso é útil, mas às vezes atrapalha. Você diz ao povo: “vamos abrir o salmo 50” e cada pessoa abre em uma tradução diferente. Mas, estas são dificuldades de menos, outras, de fato, são a linguagem, a história e o contexto. Com explicar algumas coisas que aconteceram no Antigo Testamento? As próprias notas ao pé da página ajudam justamente nisso. Mas, mesmo com essas dificuldades, o povo ainda continua lendo, ultrapassando as dificuldades.

O senhor já possui muitos livros publicados. Há mais algum em vista?
Quando uma pessoa casa, não sabe quantos filhos vai ter. Deixa por conta de Deus. A gente faz conforme as necessidades. Quanto se precisa, por exemplo, para o mês da Bíblia, algo mais simples, isso sai. Afirmo que tudo é unicamente para ajudar. 

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