Arquidiocese de Maceió | Igreja Missionária e Samaritana

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Notícias / Entrevistas

10/01/2013 10h57

Irmã Zarita fala sobre sua experiência como religiosa vinculada ao Mosteiro do Catita

Teologia da Libertação, vida contemplativa e experiência no deserto estão entre os temas abordados na entrevista

Diácono Rodrigo Rios
Ir. Zarita é natural de Fortaleza (CE) e atualmente está ligada à Fraternidade dos Missionários do Campo em Colônia Leopoldina

Em Alagoas há uma Fraternidade denominada como Missionários do Campo, conhecida como Mosteiro do Catita, por conta da localidade onde está presente, um povoado homônimo, na cidade de Colônia Leopoldina. De caráter misto, a Fraternidade acolhe homens e mulheres para uma vida contemplativa e então entrevistamos Maria Izair de Albuquerque Furtado, conhecida como Ir. Zarita, natural de Fortaleza (CE), que mora em uma casa de apoio dos Missionários do Campo, para nos contar sobre a experiência de se associar à Fraternidade, deixando assim a sua Congregação das Irmãzinhas de Jesus. Ela passou por diversos lugares como França, Alemanha, Portugal, Buenos Aires, chegando a conviver com muçulmanos nos Marrocos e relata assim a forma como percorreu tantos caminhos para chegar à Fraternidade dos Missionários do Campo em nossa Arquidiocese.

Como foi a descoberta de sua vocação?
Não sei se posso falar exatamente de descoberta. Sou de família católica, que freqüenta a Igreja, mas sem muito compromisso. Meu pai chegou a estudar no Seminário, mas depois se afastou e ficou esotérico. Estudei em um Colégio que tinha missa diariamente. Fui formada num ambiente de vida religiosa. Eu queria ser missionária. Pensava muito nos índios que não conheciam Jesus Cristo. Fazia parte dos Movimentos de Ação Católica e alimentava esse sonho. Na época, eu tinha um Diretor Espiritual, um padre santo, Hélio Campos que depois até se tornou bispo. Ele foi quem descobriu minha vocação religiosa. Mas, quando eu olhava para a realidade da utilização do hábito, achava que nunca iria me acostumar com essa vestimenta. O esporte, a música, a arte, eram muito fortes na minha vida. Havia um grupo de intelectuais que passei a conviver, cheguei a namorar um desses artistas, alimentei sonhos como em formar uma escola de música, então esfriei na minha vontade vocacional. Contudo, nunca se apagou o desejo de viver para algo, não para mim. Naquele tempo se falava em viver por um ideal. Conheci um dominicano e ele me fez descobri Charles de Foucauld e as Irmãzinhas que haviam acabado de chegar no Brasil. Li alguns livros e eu pensei que isso era para mim. Visitei então as Irmãzinhas que haviam acabado de chegar ao Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro. Cheguei a adiar a decisão, mas os acontecimentos foram mostrando que isso era o que Deus desejava de mim.

Durante seu tempo de Congregação, passastes um tempo no deserto. Como foi essa experiência?
A congregação tem muito da internacionalidade, pois Charles de Foucauld, tinha esse pensamento. Ele mesmo se chamava de “o irmão universal”. Ele era francês e a fundadora também. Então nossa formação começou na França e no deserto. Todos nós tínhamos que fazer um estudo por um ano de Teologia. Vinham pessoas de diversos lugares do mundo, e fiz este ano lá em Toulouse, na França. Fiz com os padres dominicanos, reconhecidos por sua intelectualidade. Depois fiz os votos perpétuos em Roma. No início, a Congregação foi uma novidade, pois não tínhamos convento, morávamos nas casas, vivíamos no meio do povo, trabalhávamos para a sobrevivência. Paulo VI acompanhou tudo com muita solicitude. Éramos também muito voltados para o convívio com os muçulmanos. Fiz então uma experiência no deserto, pois fazia parte da espiritualidade do Pe. Foucauld. Foi marcante quando passei um tempo no deserto do Saara. Foi um tempo de oração mais profunda, e todos nós tínhamos que participar. No deserto, há algumas cidades em torno dos Oásis, aqueles pontos de água existentes ali. Então, fiquei numa cidadezinha dessas.

Como foi sua saída da Congregação e a vinda para Alagoas?
Quando saí da Congregação, fui para muitos lugares. Alagoas foi a última, já no meu fim de vida, digamos assim. A saída foi difícil. Quando aconteceu o Concílio Vaticano II, com a descoberta, sobretudo na América Latina, das Comunidades Eclesiais de Base, eu achava que as Irmãzinhas estavam fechadas para isso. Enfim, coloquei para as minhas superioras e então perceberam que eu estava indo para outros caminhos. Sugeri fazer uma experiência sem me desligar, mas não aceitaram. Pensava que poderíamos dar alguns passos, que hoje foram dados inclusive, mas não era a hora naquele tempo. Hoje ainda sou muito ligada à Congregação. Comunico-me com freqüência, e ainda mantenho a espiritualidade. Vivi uma experiência muito bonita no interior do Ceará com mais uma Irmãzinha na convivência com o povo. Nesta nova orientação, Dom Fragoso, bispo de Crateús, esteve conosco e ao me ouvir, disse-me ser necessário conhecer alguém que estava com uma busca semelhante à minha: João Batista. Depois, quando fechamos essa casa e fomos para o Rio, Dom Fragoso encontrou-se com João Batista e disse que ele precisava me conhecer também. Este havia terminado os estudos do Seminário, mas não tinha sido ordenado, depois fez uma consagração própria, meio monástica, mas estava sem saber onde ficar, para onde ir. Foi quando me visitou no Rio de Janeiro e então, depois, fui à Paraíba, onde resolvi iniciar uma caminhada junto à João Batista. Lá ele começou com Comblain um Seminário, conhecido como Teologia da Enxada, um Centro de Formação Missionária, para formar rapazes do interior, sobretudo do Nordeste, que não tinha oportunidades por conta dos estudos. Lá ajudei por 12 anos. Posteriormente, aqui em Colônia Leopoldina, Padre Aldo havia iniciado um trabalho no sítio do Catita e já que estava deixando a paróquia, ofereceu aquela comunidade para que João Batista desse continuidade. João então me chamou para cá, para esta cidade e aqui estou. Decidi terminar meus dias aqui então. Vivo numa casa que é um ponto de apoio. Optei por não morar com eles na casa no Catita, por que pelo meu temperamento, não queria ficar ali isolada. A vida de contemplação e oração, eu carrego e quero continuar, mas queria ficar no meio do povo. Então fiquei nesta outra casa. Aqui se tornou um local de acolhida na cidade.

Você considera os Missionários do Campo ligados à Teologia da Libertação? Qual a sua análise deste ideal na Igreja?
Fazer uma análise é difícil, pois quase não acompanho mais os que vivem a Teologia da Libertação. Eu não sou de carteirinha (risos). Acompanhamos com muita alegria o começo, no despertar no povo, na Igreja. Na Conferência em Medellin, foi algo muito bom. Os Missionários do Campo não seguem à risca à Teologia da Libertação, eles seguem mais a vida monástica. Aqui uma descoberta para mim foi a leitura dos Padres da Igreja, que nunca tinha feito dessa forma. Vejo resquícios muito bons da Teologia da Libertação nas pessoas ainda comprometidas com a vida, com o povo. Às vezes romantizamos muito a questão no tratamento dos pobres. As pessoas que conheci eram comprometidas verdadeiramente com a causa e possuíam uma espiritualidade forte.
 

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